A primeira conexão internet no Brasil fora da academia acaba de fazer 25 anos

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Cristina de Luca (*) -- 02/07/2017 12h46

Só ontem, vendo uma reportagem na TV sobre os 25 anos da Rio-92, Eco-92 ou Cúpula da Terra, como queiram chamar, me toquei que a primeira conexão internet da sociedade civil brasileira completou 25 anos! Durante a conferência, na expansão das conexões  para além das dependências universitárias, e  graças ao Ibase e à ONU,  nasceu o embrião do que se transformaria mais tarde, em 1994, no primeiro provedor de acesso nacional.

Foi com as universidades brasileiras ainda tateando no uso da Rede Nacional de Pesquisa e com os BBS se tornando mania no país, que duas iniciativas,  independentes e paralelas, a própria RNP e o AlterNex, do Ibase, acabaram se juntando em um esforço comum para viabilizar as comunicações, via Internet, da Eco-92.

No final de 1990, o Ibase iniciou o “UNCED Information Strategy Project in Rio” (ISP/Rio) _ que viria a ser incorporado ao Acordo de País Sede, assinado pela ONU e o Brasil, para a realização da Eco-92. O projeto previa a montagem e operação de uma rede de microcomputadores interligando todos os espaços do evento, entre si e à Internet.

“A Eco-92 era a primeira conferência da ONU aberta à participação da Sociedade Civil organizada. Como muitas ONGs não tinham recursos para enviar representantes ao Rio, tivemos a ideia de usar a Internet para disseminar as informações e receber documentos das entidades ausentes”, conta Carlos Afonso, em entrevista que colhi para um livro do CGI.br que nunca saiu do papel.

“Apresentamos a ideia para o secretário-geral da UNCED 92, Nitin Desai, que achou interessante e deu sinal verde. Em paralelo, o PNUD já estava trabalhando com outras ONGs e o pessoal do AlterNex no projeto Interdoc. E a APC já estava montada. Por conta de toda esta colaboração internacional, o governo canadense nos deu apoio financeiro. A Sun doou US$ 100 mil em software e hardware, via PNUD, para o Ibase operar o sistema Internet da Eco 92, no âmbito do projeto AlterNex. Eram máquinas SPARC estado da arte na época. Esse equipamento ficou com o projeto AlterNex. E permitiu um grande salto de qualidade nos serviços, na época”, completa Carlos Afonso.

Em paralelo, a ONU conseguiu a doação de dezenas de máquinas 486 (também topo de linha na ocasião). Esses 486 foram posteriormente utilizados pelo Centro de Informações do Ibase/RNP e outros projetos da RNP.

Por determinação da ONU, o Brasil e a APC lideraram o projeto, apesar de todas as dificuldades impostas pelo governo brasileiro, que queria entregar as comunicações de dados da Eco-92 nas mãos do Serpro e da Digital. E o fizeram com êxito. Segundo Carlos Afonso, graças ao envolvimento da RNP, que desempenhou um papel fundamental na ativação do acesso Internet.

“O pessoal do Serpro nem sabia o que era Internet. Não fazia ideia do que a gente estava propondo. Só sabia que era ruim para eles, porque perderiam o projeto”, revela Carlos Afonso. “Procurei o Tadao Takahashi, por saber das conexões internacionais da RNP e, graças à visão dele, de que aquilo podia ser benéfico para a rede acadêmica, fomos conversar com o Michael Stanton, então coordenador da Rede-Rio, que interligava as universidades e centros de pesquisas cariocas.

“Um dia, em 1991, o Carlos Afonso apareceu na PUC para conversar comigo, levado pelo professor Paulo Aguiar, da UFRJ. Trouxe seus planos para a Eco-92 e pediu o apoio da Rede-Rio para prover conectividade internacional à Internet para o evento. A partir deste dia, o Ibase passou a ser considerado um futuro cliente da Rede-Rio Fase 2, que acabaria entrando em funcionamento no ano seguinte para ativar a conexão internacional própria de 64 kbit/s,  instalada às vésperas da Eco-92, em grande parte devido à importância deste evento”.

“O Tadao e o Carlos Afonso se articularam e fizeram um trabalho magnífico. Muito bem feito. Montaram aquela infraestrutura toda. Estamos falando de uma época anterior ao surgimento da Web. O papel que a RNP e o Ibase tiveram na Eco-92 foi importante para exibir talentos, para provar competência, para mostrar para o mundo inteiro que nós tínhamos condição de fazer conectividade. Foi uma façanha”, garante Ivan Moura Campos.

Portanto, se na Rio-92 chegou-se à conclusão de que temos de agregar os componentes econômicos, ambientais e sociais para salvar o meio ambiente, foi nela também que nos demos conta de que era preciso conectar o Brasil inteiro à Internet.  Nascia o que passou a ser conhecida entre os acadêmicos, BBSzeiros e ONGs, a tal Internet de produção, mais tarde transformada em internet comercial pela atuação do próprio AlterNex e outros tantos BBS transformados em provedores de acesso, como o Mandic, em São Paulo.

Depois da Eco-92, houve uma corrida de filiação à ONG Associação para o Progresso das Comunicações (APC), especialmente entre jornalistas e BBSzeiros, para obtenção de uma conexão Internet. Entre os veteranos no uso da Internet no Brasil, há muitos que ainda se orgulham de ter tido o primeiro endereço de e-mail com o sufixo @ax.apc.org. Eu entre eles.

Em setembro de 1993, o lançamento do visualizador gráfico de hipertexto Mosaic (que conhecemos hoje como navegador ou browser) abriu o caminho para a exploração da Internet como negócio. Um ano depois seu criador, Marc Andreesen, fundou a Netscape.

Até então, a Internet se resumia a conversas e trocas de informação por texto. O nome deste blog é uma homenagem à uma das portas de acesso mais utilizada na época. Os recursos da rede se limitavam a comandos como finger e talk, para estabelecer conversas via chat,. A gente acessava o Gopher da PUC-Rio para saber a hora certa na cidade e enviava mensagens para a esquina-da-letras@dcc.unicamp.br para criar uma lista de discussão sobre qualquer tema, como hoje a gente faz nos grupos de Facebook. E achava tudo isso o máximo! Porque aprendemos bem cedo que a Internet  não era só uma gigantesca rede de redes, como dizia o meu amigo Sérgio Charlab, unindo milhões de computadores ao redor do mundo, nos permitindo conexões internacionais antes consideradas de “segurança nacional”.

Pós Eco-92, aprendemos que a Internet era  “A” rede para unir pessoas e dar espaço à troca de ideias e às emoções. Ajudar a compartilhar problemas e a buscar soluções. Ter a chance de encontrar muita gente parecida, mas também muita gente diferente de nós, disposta a fazer novos amigos.

Hoje, nossas nossas lutas são outras. Mas, no fundo,  foram e continuarão a ser sempre pela democratização do acesso!

(*) Fonte: https://porta23.blogosfera.uol.com.br/2017/07/02/a-primeira-conexao-internet-no-brasil-fora-da-academia-acaba-de-fazer-25-anos

Cristina De Luca é jornalista especializada em ambiente de producão multiplataforma. Hoje trabalha como colunista de tecnologia da Rádio CBN e editor-at-large das publicacões do grupo IDG no Brasil. Foi diretora da área de conteúdo do portal Terra; editora-executiva da área de conteúdo da Globo.com; e editoras executiva da unidade de Novos Meios da Infoglobo, responsável pela criacão  e implantacão do Globo Online. Master em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro, é ganhadora do Prêmio Comunique-se em 2005, 2010 e 2014 na categoria Jornalista de Tecnologia.


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